Quando o perigo mora em casa

O mês de março foi particularmente triste para uma família pernambucana cujo drama virou polêmica nacional: quem não se lembra da menina de 9 anos que, estuprada pelo padrastro desde os 6 anos de idade, engravidou de gêmeos e foi submetida a um aborto previsto na lei? E do austríaco de 74 anos que manteve a filha como escrava sexual presa em um porão por 24 anos e ainda teve 7 filhos com ela?

Esses e tantos outros tristes casos ganham as manchetes dos jornais e revistas quase todos os dias. É notório o grave problema de saúde pública que vivemos em todo o mundo: a violência contra a mulher. Sem querer classificar a violência em mais ou menos grave, até porque violência é sempre violência e é inconcebível em toda a qualquer situação, a pedofilia – distúrbio sexual onde o indivíduo sente desejo sexual por crianças, nutre fantasias sexuais com elas e muitas vezes parte para a ação – é a que mais choca as pessoas.

Vergonha, sentimentos de culpa, medo e incertezas dificultam e muito a denúncia dos agressores

O mais aterrorizante é enfrentar as estatísticas: estima-se que, no Brasil, a cada dia, 165 crianças ou adolescentes sejam vítimas de abuso sexual – a maioria esmagadora dentro de seus próprios lares, com pessoas de seu convívio. Pensar que situações assim acontecem com freqüência tão assustadora parece absurdo, mas não é. Infelizmente, a família, que deveria ser sinônimo de amor, carinho, respeito e proteção contra os perigos do mundo é, muitas vezes, algoz. Ao invés de contarem com o amor de adultos responsáveis por sua criação e formação, sofrem com estupros e tantas outras formas de violência, de uma forma cruel e sórdida para que continuem caladas, escondendo o sofrimento e a humilhação.

O caso da menina pernambucana que engravidou de gêmeos, após ser estuprada por três anos pelo seu padrasto, tornou-se uma triste polêmica: por um lado, revelou a face mais cruel da violência, o estupro de meninas cometido por pessoas que deveriam dar amor e proteção. De outro, a questão do aborto, que mesmo nas situações previstas em lei – nesse caso, particularmente incontestável pela gravidade da situação – continua sendo durante criticado por alguns setores da sociedade que teimam em seguir na contra-mão da ciência, da realidade social, do Estado laico e infelizmente, da saúde pública.